Resenha | Projeto Zavtra: a conspiração

Resenha | Projeto Zavtra: a conspiração

A crise econômica pela qual o mundo vem passando afetou a sociedade em vários aspectos, entre eles a saúde mental da população. Estudos revelam que em consequência disso o número de suicídios aumentou consideravelmente. Tomando como pano de fundo esse cenário preocupante, surgiu Projeto Zavtra: a conspiração, um romance policial da escritora brasileira Joyce Maldonado, integrante dos Novos Autores do Leituraverso.

Na trama, diversos países se unem para formar a SUCOMB (Suicide Combat) uma organização mundial de combate ao suicídio. Essa instituição financia os projetos de três grandes entidades associadas a ela: a inglesa Faith Healers, que defende a “cura pela fé”; a francesa Les Gardiens, que investe no poder da música para tratar seus pacientes e a russa Zavtra, a qual possui misteriosos e eficazes métodos de tratamento. É nesta última que o psicólogo Aleksey Petrovin ingressa para auxiliar sua colega de profissão, Alisa Sanders. Juntos, eles percebem um padrão que se repete entre os pacientes que socorrem: todos são admiradores da cantora Caligo, um ícone pop internacional. Assim inicia-se uma série de investigações, ao mesmo tempo em que mortes misteriosas começam a ocorrer.

O ritmo da leitura é ágil, de forma que o leitor avança pelo livro rapidamente. Os capítulos são pequenos e vão alternando entre os diferentes personagens. A narrativa em terceira pessoa se adequou perfeitamente, pois sabemos o que está acontecendo simultaneamente em vários locais. Assim, desde as primeiras páginas percebemos que há algo de errado. Um jogo de interesses e vontades ocultas vai se desenrolando e fica difícil determinar quem é vilão e quem é vítima nessa história. A cada capítulo, um novo fragmento de informação é acrescentado até que tudo se encaixe e faça algum sentido.

Todo esse suspense demonstra a habilidade da autora ao conduzir a trama até o final. Enquanto isso, vamos desvendando o psicológico dos personagens, dentre eles o de Aleksey. Apesar de ser psicólogo, ironicamente ele nunca foi muito bom em socializar com as pessoas. Na verdade ele é um jovem metódico que segue regras, baseia suas ações em fatos comprovados e sofre de grave crise de ansiedade. Para controlar a crise, ele depende de altas doses de calmante e isso nem sempre é o suficiente.

Essa questão da dependência de calmantes e antidepressivos também é abordada, já que na história muitas dessas drogas – incluindo a que Aleksey usava – foram proibidas por conterem substâncias prejudiciais aos usuários. Isso não é nada diferente da realidade, onde cada vez mais as pessoas tornam-se escravas de tais medicamentos. Há aqueles que defendem seu uso (na maioria das vezes quem depende dele ou quem lucra com ele) e aqueles que o condenam. Esse assunto é algo que de fato precisa ser discutido e analisado com cuidado, visto que a depressão já está sendo considerada o mal do século XXI.

Dentro de todas essas subtramas, o romance vai chegando à sua conclusão. A maior preocupação era quanto às pontas soltas, entretanto não houve nenhuma. O grande mistério foi resolvido e realmente foi surpreendente e audacioso. A agilidade dos acontecimentos não foi diferente, mas nesse momento foi um pouco prejudicial para o desenvolvimento, pois ficou parecendo rápido demais. Também não concordei com o destino de alguns dos personagens, mas isso é uma opinião pessoal e não compromete a qualidade da obra como um todo.

De todo modo, Projeto Zavtra: a conspiração é um livro que prende até o fim. De todas as minhas leituras esse ano, esse foi o livro com mais de 350 páginas que terminei de ler mais rápido. Joyce Maldonado consegue instigar a curiosidade e não decepcionar no final. Assim, este é mais um livro nacional que merece ser descoberto por todos.

Adicione este livro à sua estante!

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.