Encontrar-se no Desalinho| L&P

Encontrar-se no Desalinho| L&P

Entre portas batendo e suspiros de frustração me via presa. Podia andar de canto a canto de minha casa, meu corpo era livre, minha sanidade não. Armaram sobre mim uma rede de fios de raiva. Fui capturada. Eu era feita da junção de frias lágrimas e áspera angústia. O laço deles ao passar do tempo era desfeito e isso me destruía. Mas permanecia calada, a voz não me fazia jus; não me achava digna. Sei que eles não faziam por mal. E foi aí, enquanto me afogava em palavras não ditas, que descobri a existência de algo em que me agarrar. Eu detinha a chave. Feita de madeira e grafite, ascendia-se quando riscava o papel. Todas as amarras afrouxavam. Já não existia paredes e o único barulho que ouvia, era da minha sumida voz. Ecoava alta e clara, contando estórias de tempos mais felizes; criando personagens e lugares. Inventava mundos, gostava de ser senhora deles. Brincava de ser Lobato, queria minha própria Reinações de Narizinho. Seres inanimados que correm e falam me fascinaram. Queria poder aninha-los. Conversava com todos e tinha o dever de contar suas histórias. Mundos fantásticos onde relógios serviam tortas, e todas as crianças podiam sorrir, era onde me encontrava. Dei aos meus amigos de grafite e papel um bom lugar. Tal como Ziraldo, Maurício, Cecilia, Cervantes e até mesmo Carrol, em suas infinitas formas. Todos íntimos meus. Escorreguei nas graças da prosa. Gostava do caminho que seguia. Quando lá estava, não mais existia dor, não existia problemas. A angústia me abandonava. Me sentia acolhida. Não era eu mesma, e isso me deixava feliz. 

A autora

IMG-20160702-WA0000

Thayná Cavalcante é de Goiânia, cursa letras na Universidade Federal de Goiás. Faz da literatura um hobby e também uma profissão. Ama livros e gatos. Também gosta de Ballet Clássico, Jazz, Rock Nacional e filmes de animação

Se você gostou  e quer participar, envie-nos seu texto. Sabia maia lendo o regulamento.

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.