Cinema | Pantera Negra (2018) | Crítica

Cinema | Pantera Negra (2018) | Crítica

Chegou aos cinemas o filme solo do Pantera Negra. E o que parecia apenas um aquecimento para Vingadores: Guerra Infinita, revelou-se como uma obra grandiosa com estilo próprio e diferente de qualquer coisa que a Marvel tenha lançado até agora nos cinemas. O diretor Ryan Coogler nos introduz em um novo mundo dentro daquele que já conhecemos, e nos apresenta a cultura do avançado povo wakandiano.

A trama se inicia logo depois dos acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil (2016), onde o rei T’Chaka (John Kani), faleceu em um atentado. Agora, o príncipe T’Challa (Chadwick Boseman) retorna a Wakanda para assumir o trono. Com o apoio de sua irmã, a cientista tecnológica Shuri (Laetitia Wright), da chefe da guarda real, a General Okoye (Danai Gurira), e da guerreira Nakia (Lupita Nyong’o), o Pantera Negra tenta governar da melhor forma possível. E seu primeiro ato como soberano é ir atrás do contrabandista Ulysses Klaue (Andy Serkis), o qual roubou uma grande quantidade de Vibranium, o material mais resistente do planeta e fonte de toda a tecnologia wakandiana. Porém ele se depara com uma ameça ainda maior.

O primeiro impacto que o longa causa é o visual. A variedade de cores das armaduras e trajes dos habitantes, os cenários de tirar o fôlego, os hábitos e rituais. Tudo isso imerge o espectador em uma atmosfera única onde não resta dúvidas de que você está vivenciando uma cultura africana. A cada novo detalhe, vamos conhecendo um pouco mais sobre Wakanda e como ela se tornou o que é: uma nação tribal que não ficou parada no tempo ao aliar tecnologia e tradição.

Isso sem contar a trilha sonora escolhida com cuidado para cada cena, contribuindo ainda mais para o envolvimento com a narrativa. O rapper Kendrick Lamar foi o responsável pelo álbum Black Panther: The Album Music From And Inspired By e o compositor sueco Ludwig Göransson cuidou da parte orquestral, exaltando o ritmo dos tambores africanos, que em muitos momentos acaba remetendo a Rei Leão (1994) para os mais saudosistas.

E falando na animação da Disney, a música não é a única semelhança entre as duas produções. Em ambas há uma disputa pelo trono e pelo governo da nação. Porém, em Pantera Negra essa politização é muito mais marcante, outro fato que o diferencia das demais obras da Marvel. De um lado está o rei T’Challa, ainda ganhando confiança para conduzir a política de Wakanda e preservar o seu país dos olhares do restante do mundo. Do outro está Erik Killmonger (Michael B. Jordan), com uma visão mais radical. Questões como conflitos raciais, ajuda humanitária e abrigo para imigrantes estão incluídas nas passagens do filme, em uma crítica clara a Donald Trump.

Isso causa um antagonismo muito mais evidente entre o Pantera e seu rival Killmonger, que remete à rixa de duas figuras marcantes na história dos EUA: Martin Luther King e Malcon X, os quais já inspiraram outra rivalidade clássica dos quadrinhos com Magneto e Professor Xavier. Não se trata apenas da típica luta bem versus mal, de modo que as duas partes têm razão em alguns pontos. Os dois carregam os legados de seus pais, os quais entendiam o mundo de maneiras distintas. Para o protagonista, entretanto, o conflito interno é muito mais intenso visto que ele precisa decidir entre seguir os passos do pai ou trilhar o seu próprio. Já para seu adversário, as coisas são mais claras e os objetivos bem definidos, o que o torna um “vilão” carismático com uma motivação convincente.

Por último, mas não menos importante, outra característica que destaca Pantera Negra é sua representatividade. Ele exalta uma parcela da população vítima de preconceito e racismo afirmando que eles têm o seu lugar e importância na sociedade. No cinema, esta foi a primeira película da Marvel a fazer isso de forma mais direta, com mais de 95% do elenco composto por atores negros; já nas séries, um bom exemplo é Luke Cage. As mulheres também têm seu destaque: tando Okoya, quanto Shuri e Nakia têm carisma e um papel fundamental dentro da trama. Outro filme do gênero que resgata essa representação feminina é Mulher-Maravilha (2017).

Assim, esses são todos os motivos que explicam porque este pode ser um dos melhores filmes da Marvel em 2018. O que era para ser um aperitivo antes da Guerra Infinita acabou ganhando ares de prato principal ao inovar em algo que já parecia trivial dentro dos filmes de heróis. Pantera Negra honra a cultura africana e a coloca em evidência para o mundo sem tentar ser pretensioso.

Ficha Técnica:

  • Data de lançamento: 15 de fevereiro de 2018
  • Duração: 2h15min
  • Direção: Ryan Coongler
  • Gênero: ação, aventura, ficção científica, filmes de super-heróis
  • Elenco: Chadwick Boseman (T’Challa/Pantera Negra), Michael B. Jordan (Killmonger), Danai Gurira (Okoye), Laetitia Wright (Shuri), Lupita Nyong’o (Nakia), Forest Whitaker (Zuri), Martin Freeman (Everett Ross)
  • Trilha sonora: Kendrick Lamar/Ludwig Göransson

Assista ao trailer:

Ouça a trilha sonora de Pantera Negra no Spotfy

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.