Cinema | Capitão Fantástico (2016) | Crítica

Cinema | Capitão Fantástico (2016) | Crítica

O cinema independente ainda é pouco valorizado pelo público em geral, tanto que muitos títulos nem chegam a ser exibidos nos cinemas brasileiros. Com isso perdemos a chance de assistir a diversas produções que conseguem fugir do óbvio, nos comover e fazer refletir. Esse é o caso da comédia dramática Capitão Fantástico, que foi exibida na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes e é dirigida e roteirizada pelo ator Matt Ross (O Aviador, 2004 e A Outra Face, 1997).

O filme nos apresenta uma família inusitada: Ben (Viggo Mortensen) e seus seis filhos vivem isolados em uma floresta, onde sobrevivem da caça e do cultivo dos próprios alimentos. Diariamente eles passam por uma rotina rigorosa de treinamentos de escalada, corrida e autodefesa. Aliado ao preparo físico, as crianças são educadas lendo clássicos da literatura e obras filosóficas, sendo sempre estimuladas pelo pai e tutor a debater sobre o que aprenderam. Após o falecimento da mãe deles, porém, o grupo precisa deixar o seu refúgio e encarar a civilização, reencontrando parentes distantes e reacendendo antigos conflitos.

O que imediatamente chama a atenção no longa é a forma como o pai educa os filhos. Apesar de impor uma disciplina rígida, ele os trata de igual para igual, sem lhes subestimar a inteligência. Essa característica é responsável por algumas das cenas de humor, visto que o Capitão precisa responder a questões aparentemente constrangedoras que as crianças geralmente fazem. Enquanto a maioria dos pais ficaria sem saber como explicar para um garoto de 5 anos o que são estupro e relações sexuais, Ben fala de maneira objetiva e sem vulgaridades, tendo em mente que é melhor ser sincero. Outro ponto notável, é o constante estímulo que ele dá aos seus rebentos para terem opinião própria e pensamento crítico desde a primeira infância, de forma a não serem manipulados por outras pessoas. Infelizmente, isso é algo que falta às nossas crianças, tanto nas escolas quanto nos lares, fruto de um sistema educacional deficiente que perdura até hoje por ser conveniente aos governadores.

A outra parcela de comédia fica por conta do choque de realidade entre o estilo de vida que os protagonistas levam e aquele vivido pela sociedade americana em geral. Quando nos deparamos com costumes muito diferentes dos nossos, é inevitável reagirmos com certo estranhamento. Mas vale ressaltar que o objetivo da película não é levantar uma bandeira anticapitalismo, muito menos tomar algum partido político. A verdadeira intenção é mostrar que, na prática, é difícil estabelecer uma forma 100% benéfica para se viver e criar um ambiente social totalmente justo e igualitário. O que surge dessa tentativa de sociedade perfeita são os excessos e enganos cometidos por ambas as partes.

O próprio Capitão comete tais enganos enquanto tenta ensinar aos seus filhos. Por estar transtornado com a perda da esposa, ele toma algumas decisões questionáveis, deixando de lado suas consequências; sem contar o excesso de rigidez em alguns momentos. E aquela sinceridade que era bem-vinda na forma de se comunicarem assume um caráter mais agressivo já que falta tato na hora de abordar certas questões que podem ser complexas demais para uma criança absorver.

Contudo, entre os erros e acertos, o que fica claro é: independentemente do grau de instrução que se tem, se você se isolar da sociedade sempre será visto como um esquisitão ou deslocado. Por isso é lamentável que Capitão Fantástico não tenha recebido a atenção que merece, pois é uma obra cheia de originalidade e criatividade que mostra que, por mais ilustrativa que seja, a teoria dos livros não ensina a conviver com outras pessoas.

Ficha técnica:

  • Data de lançamento: 22 de dezembro de 2016 (Brasil)
  • Duração: 1h59min
  • Gênero: comédia, drama
  • Direção: Matt Ross
  • Elenco: Viggo Mortensen (Ben), George MacKay (Bo), Nicholas Hamilton (Rellian), Samantha Isler (Kielyr), Annalise Basso (Vespyr), Shree Crooks (Zaja), Charlie Shotwell (Nai) e Frank Langella (Jack).

Assista ao trailer:

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias

Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

  • Eduarda Lima

    Nossa! Se eu tivesse assistido a esse filme nas telas do cinema.. ia ser ótimo kk
    Adorei a crítica!