Cinema | 1922 (2017) | Crítica

Cinema | 1922 (2017) | Crítica

2017 está repleto de adaptações do mestre do terror Stephen King. Depois de It – A Coisa, a mais recente delas é a produção da Netflix baseada no conto 1922, que abre a coletânea Escuridão Total Sem Estrelas. Segundo o próprio King, o longa escrito e dirigido por Zak Hilditch é a melhor adaptação do ano sobre uma de suas obras.

Assim como no conto, o filme é um relato de Wilfred James (Thomas Jane) confessando seus crimes. Em 1922, ele e sua família moravam em uma fazenda cultivando milho. A única ambição do homem era trabalhar no campo e deixar tudo para seu herdeiro no futuro. Porém, quando sua esposa, Arlette (Molly Parker), decide vender sua parte das terras para ir morar na cidade, o até então pacato fazendeiro elabora um plano para matá-la. Mas para isso, ele precisa convencer seu filho Henry (Dylan Schmid) a ajudá-lo.

Mesmo tendo vários elementos de terror, esta obra em particular está mais voltada para o suspense e para o drama, gêneros que King também domina como podemos notar em À Espera de um Milagre (1999). O principal atrativo é o que se passa no psicológico dos personagens e que provoca tantas transformações no caráter. No caso de 1922, vemos um sujeito do interior, de fala mansa, se tornar frio e calculista, como se um interruptor tivesse sido acionado no seu cérebro. E o que gerou isso foi sua ambição e orgulho, que o levaram a usar sua inteligência e dissimulação para manipular o próprio filho e tirar proveito da situação.

Entretanto o que acontece depois é que movimenta a história, pois todas as escolhas trazem uma consequência consigo. Mesmo que a princípio tudo pareça bem, mais cedo ou mais tarde o passado lhe alcança para cobrar a dívida. Podemos perceber isto enquanto Wilfred escreve sua carta de confissão em um quarto de hotel. Ele tomou decisões que o assombram até o momento e acredita que confessando em detalhes o que fez pode se livrar do peso delas.

Por essa postura do protagonista, fica claro seu sentimento de culpa com relação a tudo que aconteceu no ano de 1922. É interessante ver como as coisas podem fugir de controle ainda que a pessoa pense – ou julgue pensar – em todos os detalhes. Sem contar a influência dos indivíduos a sua volta, cujas ações não podem ser previstas e podem desencadear acontecimentos fora do plano inicial. E, por fim, vem a ironia do destino com seu castigo.

Como já ficou claro, King tem a notável capacidade de criar dois tipos de vilões: os sobrenaturais ou míticos, como Pennywise de It e o Rei Rubro da saga A Torre Negra; e os humanos, alguns dos quais vemos em A Dança da Morte. Estes últimos são muito mais complexos e, apesar de Wilfred gradualmente ir se tornando uma vítima, se enquadra na segunda categoria caso o chamemos de vilão.

O sucesso da película comandada por Zak Hilditch consiste em manter a essência daquilo que Stephen King tem de melhor: conhecer o lado mais sombrio das pessoas e o interruptor que o aciona. Sendo assim, 1922 não é um filme sobre assassinatos e crimes, mas sim sobre causa e efeito e o peso da consciência.

Ficha técnica:

  • Lançamento: 20 de outubro de 2017
  • Duração: 1h41min
  • Gênero: drama, suspense
  • Direção: Zak Hilditch
  • Elenco: Thomas Jane (Wilfred James), Molly Parker (Arlette James), Dylan Schmid (Henry James), Brian d’Arcy James (Xerife Jones), Neal McDonough (Harlan Cotterie)

Assista ao trailer:

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias

Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.