Séries | Mindhunter – primeira temporada | Crítica

Séries | Mindhunter – primeira temporada | Crítica

Uma nova produção da Netflix vem ganhando cada vez mais destaque conforme as pessoas assistem e recomendam umas às outras. Trata-se da série Mindhunter, produzida por David Fincher (Clube da Luta, 1999) e Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria, 2015). A obra – inspirada no livro homônimo escrito pelo ex-agente do FBI John Douglas em parceria com o escritor Mark Olshaker – conquistou diversos fãs graças à atenção dada ao desafio de entender o lado mais obscuro da mente humana.

A trama se passa em meados da década de 1970, quando estudos sobre os distúrbios da mente eram pouco desenvolvidos e valorizados. Tentando mudar esse quadro, dois agentes do ramo de Ciência Comportamental do FBI investem, como o título sugere, na “caça” às mentes dos criminosos mais perigosos. Assim, Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany) iniciam uma série de entrevistas com diversos condenados por crimes violentos. Com a ajuda da Dra. Wendy Carr (Anna Torv), eles buscam traçar os perfis desses assassinos, entender o que os motiva a cometerem tais atrocidades e prevenir novos casos do mesmo gênero.

Como já era esperado, o foco está voltado para o psicológico dos personagens, explorando a peculiaridade de cada um. Por esse motivo, não devemos esperar cenas de ação grandiosas, perseguições em alta velocidade e tiroteios. O que tem angariado tantos admiradores para o programa é justamente o contrário: diálogos intensos, análises complexas de personalidades e investigações que põem a teoria na prática obtendo bons resultados. Mas nem por isso a violência está ausente, como percebemos ao ver as fotografias de corpos mutilados, cenas de crime brutais e, principalmente, ouvir o frio relato das mortes diretamente da boca de quem as causou.

Isso fica ainda mais perturbador ao descobrirmos que todos os entrevistados são reais. Suas condenações, bem como a narração dos assassinatos feita por eles, são verídicas. Tal fato traz mais um mérito para a série, visto que as interpretações dessas figuras macabras foram executadas de forma brilhante. O destaque, vai para o ator Cameron Britton, que interpretou Ed Kemper, condenado por matar a própria mãe e algumas colegiais. Há também Happy Anderson, com o papel de JeromeJerryBrudos, um matador de mulheres e necrófilo.

À esquerda, o ator Cameron Britton e o real Ed Kemper. À direita, Happy Anderson e Jerome Brudos

Entretanto, não são somente os criminosos que possuem suas singularidades. No decorrer dos episódios, a personalidade dos protagonistas vai se delineando e fica claro que cada um tem seus dilemas éticos e/ou profissionais. Holden, apesar da inteligência e instinto aguçados, é jovem e inexperiente. Ao longo das entrevistas, ele vai ganhando confiança nos seus métodos até tê-la em excesso e isso afeta seus relacionamentos no trabalho e na intimidade. Sem contar seus preconceitos pessoais, ainda mais fortes nos anos 70. Bill enfrenta problemas com a esposa e o filho, além de sua experiência no FBI aumentar sua resistência a novas abordagens. Já Dra. Wendy é uma acadêmica com vasto conhecimento teórico, porém peca ao aplicá-lo na realidade.

Esse trio também é inspirado em pessoas reais, mas por questões de ficcionalização, tiveram seus nomes alterados. Holden representa o próprio John Douglas, autor do livro que originou a obra. Douglas também já serviu de referência para outros personagens que lidam com serial killers, como Jack Crowford em Silêncio dos Inocentes e Jason Gideon, de Criminal Minds. Bill Tench foi inspirado em Robert Ressler, ex-agente do FBI e parceiro de John. E Wendy é a psiquiatra Ann Wolbert Burgess.

As razões que tornam Mindhunter um sucesso de aceitação pelo público são diversas. E não há melhor ocasião para seu lançamento, tendo em vista que somos bombardeados a todo instante pela mídia com barbaridades incompreensíveis. A mente humana é um labirinto pelo qual ainda estamos caminhando, contudo, graças a essas pessoas que entraram nele primeiro, estamos mais perto da saída.

Assista ao trailer:

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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