Séries | Big Mouth – 1ª temporada | Crítica

Séries | Big Mouth – 1ª temporada | Crítica

O que você pensaria se te dissessem que a puberdade – aquela transição entre a infância e a adolescência – é causada por um mostro? Um ser que modifica seu corpo, altera seus hormônios e te faz passar por situações embaraçosas? Foi essa explicação imaginativa e bem-humorada que os produtores Nick Kroll, Andrew Goldberg (de American Dad e Family Guy), Mark Levin e Jennifer Flackett deram para essa fase em Big Mouth, a nova animação da Netflix.

A trama gira em torno de Andrew, Nick e Jessi, três amigos que precisam lidar com os problemas familiares, a sensação de deslocamento na escola, as primeiras experiências amorosas e seus eventuais fracassos. Para piorar essa situação, existe a influência de Maurice, o malicioso Monstro do Hormônio, uma figura sobrenatural que simboliza as diversas mudanças características da puberdade. Tudo isso acontece baseado no humor ácido e fantasioso de um típico pastelão com piadas obscenas, palavrões e órgãos sexuais em cena.

Descrevendo assim, pode parecer apenas mais um besteirol no estilo colegial americano, mas não existe maquiagem melhor que a comédia para suavizar temas sérios com os quais os pré-adolescentes têm de conviver. Sabendo enxergar tais temas dentre as camadas de anedotas, vemos que a série vai além do superficial. Pais com problemas no casamento, superproteção ou até mesmo negligência familiar; tudo isso afeta os protagonistas e nos permite acompanhar o ponto de vista tanto dos meninos quanto das meninas, já que ambos se veem repletos de dúvidas sobre relacionamentos e sexualidade.

Para “ajudar” com esses dilemas (entre aspas, sim, porque nem sempre é o que acontece), as criaturas sobrenaturais estão sempre lá para dar um conselho. A principal delas é Maurice, para quem tudo se resume a sexo ou a coisas ligadas a essa atividade. Também há sua equivalente feminina, a Connie. Mas eles não são os únicos: no sótão da casa de Nick, mora o fantasma do cantor de jazz Duke Ellington, que faleceu em 1974. A presença dele não tem explicação, ele simplesmente está ali e ninguém se incomoda ou se assusta com o fato. O seu prestígio no além faz com que ele possa convidar artistas como Freddie Mercury para um número musical.

Entretanto, nem só de fantasia vive o desenvolvimento da produção. Não poderia faltar aquela alfinetada em celebridades ou aquela referência com selo de qualidade Capitão América. Se tratando de adolescentes consumidores de pornografia, é compreensível a menção ao garanhão italiano Sylvester Stallone e sua performance em um filme pornô no prelúdio da sua carreira como ator. Já no campo das referências, a mais óbvia é ao clássico Clube da Luta (1999) que acontece em um dos 10 episódios da temporada.

Mesmo que seja um desenho com personagens infantis, ficou claro que Big Mouth não é para crianças. Se você curte animações com esse humor cáustico e sem censuras, esta é a série ideal. Se não for sua primeira opção de entretenimento, mas se sentir capaz de filtrar apenas o que for relevante, também vale a experiência. De uma forma ou de outra, em algum momento haverá identificação com alguma passagem retratada no programa. Afinal, todos já passamos por essa fase.

Assista ao trailer:

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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