Cinema | Onde Está Segunda? (2017) | Crítica

Cinema | Onde Está Segunda? (2017) | Crítica

Quem acompanha a Netflix sabe que a gigante do streaming audiovisual investe pesado na distribuição de tramas ousadas e diferentes, desconhecidas pelo grande público. Um exemplo recente é a ficção científica distópica Onde Está Segunda (What Happened To Monday?), dirigida pelo Norueguês Tommy Wirkola, o qual também comandou João e Maria: Caçadores de Bruxas (2013).

Somos apresentados a uma Terra vítima do crescimento populacional descontrolado e da escassez de recursos naturais agravada depois que a América do Sul se tornou um deserto. Para contornar parte do problema, alimentos geneticamente modificados começam a ser produzidos em grande escala. Porém um efeito colateral inesperado surge: o número de nascimentos múltiplos (gêmeos, trigêmeos, ou mais) aumenta consideravelmente. Assim, a ativista política Nicolette Cayman (Glenn Close) implementa uma lei que permite que as famílias tenham apenas um único filho, sendo os demais encaminhados à criogenia para despertarem somente quando a situação do planeta melhorar. Nesse contexto, Terrence Settman (Willem Dafoe) precisa esconder suas sete netas gêmeas, cuja mãe morrera no parto. Após 30 anos revezando-se em uma rotina rigorosa, uma das irmãs, Segunda (Noomi Rapace), desaparece misteriosamente.

A princípio o nome das sete irmãs, cada qual chamada por um dia da semana, pode parecer uma “forçação de barra” por assim dizer. Entretanto, vemos que essa escolha tem o simples objetivo de auxiliá-las no seu cotidiano desde a infância. No dia correspondente ao seu nome, cada uma delas sai de casa para ser Karen Settman (nome da falecida mãe delas), uma filha única que trabalha em um banco e leva uma vida comum. Ao voltarem do trabalho, elas se reúnem com as demais para compartilhar todos os detalhes daquele dia e assim vão vivendo até o sumiço de uma delas.

O que chama a atenção logo de cara é o trabalho da atriz Noomi Rapace (Alien: Covenant, 2017), que interpreta os sete papéis diferentes. Apesar da semelhança física, as irmãs têm personalidades bem distintas que se manifestam pelas formas de falar, se comportar e se vestir. O desafio de colocá-las juntas em um mesmo quadro foi cumprido de forma satisfatória, já que não ficou parecendo aquele efeito rudimentar de sobreposição de imagens usado quando o Seu Barriga e o Nhonho (ambos o ator Édgar Vivar) se encontram em Chaves. Já Willem Dafoe e Glenn Close, como esperado, entregam ótimas atuações. Só é uma pena que seus personagens tenham sido pouco explorados.

A obra em si começa com uma atmosfera mais inclinada para o drama, focando na individualidade de cada irmã indo de encontro à obrigação de encarnarem a mesma personagem. Sem contar a grave questão da superpopulação semelhante ao que é abordado em Inferno, de Dan Brown. Entretanto logo em seguida o ritmo fica mais acelerado e voltado para a ação. Isso não desmerece o longa, mas coloca a questão inicial em segundo plano.

O ponto negativo mais relevante é que o grande mistério deveria ser a resposta à pergunta que constitui o título da produção, mas nós podemos deduzi-la já na metade do filme. Por outro lado, intuir isso justifica de modo mais convincente tudo o que ocorre com as protagonistas. Além disso, um fato ainda mais chocante é revelado no final.

Por isso, mais uma vez a Netflix investiu bem, honrando sua característica de exibir algo fora do comum. Embora não seja excelente, Onde Está Segunda? oferece um entretenimento que nos faz abraçar sua história e prende nossa atenção do começo ao fim.

Ficha técnica:

  • Lançamento: 18 de agosto de 2017 (Netflix)
  • Duração: 2h03min
  • Gênero: Ficção científica, drama, ação
  • Direção: Tommy Wirkola
  • Elenco: Noomi Rapace (Segunda e demais irmãs), Willem Dafoe (Terrence Settman), Glenn Close (Nicolette Cayman)

Assista ao trailer:

Saiba mais sobre Inferno:

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias

Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.