Cinema | O Clube dos Cinco (The Breakfast Club) | Crítica

Cinema | O Clube dos Cinco (The Breakfast Club) | Crítica

“Sábado, 24 de maio de 1984, Escola Shermer, Illinois”.

Assim começa O Clube dos Cinco (1985), escrito e dirigido por John Hughes (Curtindo a Vida Adoidado) e, apesar de ser um filme que estreou há 32 anos, muito do que é mostrado em suas cenas e diálogos marcantes perdura na sociedade até hoje. São questões sociais e comportamentais que focam principalmente nos jovens, mas também levam em consideração seus impactos na vida adulta.

A trama conta como cinco jovens, propositalmente rotulados, vão enfrentar um sábado de detenção na escola, onde terão de escrever (teoricamente) uma redação de mil palavras sobre quem são e por que estão ali. Temos o nerd, o atleta, a patricinha, a problemática e o valentão. Todos cometeram alguma infração e agora vão ter que ficar “de castigo”. De início, cada um desempenha bem o papel que esperam deles, contudo a convivência nesse curto período de tempo vai mostrando que há muito mais por trás de suas fachadas.

o clube dos cinco

O que mais chama atenção é como o roteiro coloca personalidades tão diferentes em um ambiente fechado. Cada um deles chega armado com ideias preconcebidas acerca dos demais, porém é o valentão Bender (Judd Nelson), com suas maneiras grosseiras, quem desencadeia a maioria das discussões e confusões nas quais eles se envolvem. E apesar do humor que tempera a maioria das cenas, é justamente durante essas brigas e diálogos intensos que podemos perceber os estereótipos que eles próprios estabeleceram para si e para os outros. Ao mesmo tempo, notamos que, enquanto falam, brincam e trocam acusações, eles inconscientemente exibem um pouco do que está por baixo daquela fachada [auto]imposta, sendo que fica óbvio que eles possuem muitos problemas em comum.

Os dois adultos que integram o elenco também precisam lidar com os mesmos preconceitos (sendo vítimas e vitimando), mesmo que de uma maneira diferente. São eles o diretor da escola, Richard Vernon (Paul Gleason), e o faxineiro Carl Reed (John Kapelos). O primeiro é um professor decepcionado com a profissão, descontando sua frustração em cima dos jovens “delinquentes”; já o segundo aparece como uma peça para a qual ninguém dá o mínimo valor, mas que sabe de tudo que se passa na escola sem que ninguém o note. Ambos contribuem para a história, cada qual com seu ponto de vista e sua função a desempenhar.

breakfast club carl the-breakfast-club-vernon

Mas o ponto alto da película é o momento em que os cinco jovens sentam-se juntos na biblioteca e tomam coragem para falar sobre o que, até então, vinham escondendo. É muito difícil que o espectador não se identifique com pelo menos um deles. A cena tem uma carga dramática que nos comove e levanta muitos questionamentos: até onde somos parecidos com eles? Quais desses rótulos nós também carregamos? Vivemos em função do que as pessoas a nossa volta vão pensar de nós? E finalmente: podemos ser amigos, mesmo sendo tão diferentes?

o clube dos cinco

Cabe aqui dizer que o filme não nos questiona sobre isso de maneira vulgar. São perguntas que nós mesmos fazemos em algum momento. Dá para dizer que a trama tem vida própria e vai se conduzindo até sua conclusão. Não é um espetáculo fabricado para fazer um drama efêmero e logo ser esquecido. O que é retratado são coisas que podem estar acontecendo conosco neste momento, seja no ambiente escolar, profissional ou familiar. Assim, O Clube dos Cinco funciona como um lembrete para checarmos nossa própria vida e conferirmos se estamos nos deixando levar por estigmas sociais sem nem percebermos isso.

Ficha técnica:

  • Data de lançamento (no Brasil): 28 de junho de 1985
  • Gênero: Comédia dramática
  • Elenco: Emilio Estevez (Andrew Clark), Judd Nelson (John Bender), Molly Ringwald (Clair Standish), Anthony Michael Hall (Brian Johnson), Ally Sheed (Alison Reynolds), Paul Gleason (Richard Vernon), John Kapelos (Carl Reed)
  • Roteiro e direção: John Hughes
  • Canção original: Don’t you (Forget About Me) – Simple Minds

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.
  • Eduarda Lima

    Eu amo tanto esse filme que nem sei dizer. E sua resenha conseguiu abarcar todos os pontos que eu via como importantes, mas o melhor de tudo foi ler aqui como vc encarou os efeitos de O Clube dos cinco em nossas próprias vida. Amei!

    • Obrigado, Duda! Pois é, consegui enxergar várias coisas que se aplicaram na minha própria vida e imagino que eu não tenha sido o único atingido por essas questões. O filme é muito bom mesmo e você, como sempre, tem muito bom gosto. Beijo!

      • Esse é o tipo de filme que você assiste e ele ainda fica com você por um bom tempo. Uma história simples, uma mensagem interessante, um tema tão atual, trilha sonora épica e um elenco show de bola. Sim, eu listei cinco coisas de propósito kkkk