Cinema | Inferno – o filme | Crítica

Cinema | Inferno – o filme | Crítica

Depois de muito esperarmos, enfim a adaptação do livro Inferno chega aos cinemas. A expectativa em cima desse filme era alta, visto a decepção causada pelas aventuras anteriores do simbologista Robert Langdon nas telonas. Porém, mais uma vez, a produção dirigida por Ron Howard toma um rumo próprio e nos apresenta uma trama simplória e desprovida de todas as reflexões que a obra original de Dan Brown consegue nos propor.

A ideia principal se mantém: Langdon (Tom Hanks) acorda com amnésia em um hospital italiano, sem fazer ideia de como chegou a outro continente. Logo depois, ele descobre que pessoas misteriosas e influentes querem matá-lo e que, para escapar com vida, ele precisará da ajuda da médica Sienna Brooks (Felicity Jones). Acontece que as pessoas que perseguem o professor estão atrás de um objeto que ele detém. Trata-se de um mini projetor que mostra o Mapa do Inferno, o ponto de partida para localizar uma ameaça criada por Bertrand Zobrist (Ben Foster) – um geneticista fissurado pela obra de Dante Alighieri que defende a redução drástica da população mundial, por quaisquer métodos que sejam.

 Para ser justo, o filme avança bem até mais de sua metade, seguindo o mesmo rumo do romance. As escolhas de excluir alguns personagens secundários, omitir algumas passagens do livro e trocar outras de lugar, ajudam na agilidade roteiro. Tendo em vista que Dan Brown costuma dar bastante foco às descrições arquitetônicas e históricas, é compreensível que essas pequenas alterações e omissões sejam necessárias para encaixar a história dentro de duas horas de duração. Além disso, as alucinações experimentadas por Langdon no início foram bem executadas, de modo a criar uma atmosfera sombria conveniente ao título. E a perseguição aos protagonistas feita por um drone dentro dos Jardins de Boboli teve um ritmo empolgante e frenético.

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Entretanto, quando tudo indicava que esta seria a adaptação mais fiel das três já produzidas com o simbologista de Harvard, a película toma outro rumo, alterando completamente o desfecho e reduzindo consideravelmente sua qualidade. Por mais que algumas mudanças sejam permitidas e até admitidas em uma adaptação, não são justificativas para mostrar ao público algo inferior ao que originalmente foi feito, com pontas soltas e questões mal resolvidas.

Como sempre, a necessidade de criar vínculos sentimentais clichês com os espectadores está presente. No livro, Robert Langdon conhece a diretora da Organização Mundial da Saúde, Elizabeth Sinskey (Sidse Babett Knudsen), quando esta lhe procura pedindo ajuda para solucionar o enigma criado por Zobrist. No filme, contudo, subentende-se que os dois tiveram um relacionamento amoroso mal resolvido. Esse lugar-comum foi criado apenas para fazer uma ligação com Dante e seu amor impossível, Beatriz, de outra forma é um dado sem nenhuma importância dentro da trama.

Dentre tantos pontos negativos, novamente o que estraga a adaptação é o tratamento raso dado aos personagens. De novo, Hollywood subestima nossa inteligência e limita o longa-metragem a uma batalha do “bem contra o mal”, já mastigada e fácil de ser digerida. Com seu livro, Brown conseguiu criar personalidades dúbias e complexas onde devemos parar e analisar a situação de várias maneiras antes de definir quem é “do bem” ou “do mal”. O livro já faz isso por nós, tornando o final previsível e eliminando qualquer anseio por algo diferente.

Sendo assim, Inferno era um filme que tinha tudo para dar certo, porém se perdeu dentro das liberdades do roteiro. O resultado é uma produção morna que agradaria somente os expectadores menos exigentes que não pagaram o ingresso para pensar muito sobre motivações filosóficas ou cientificas.

Ficha técnica:

  • Lançamento: 13 de outubro de 2016;
  • Duração: 2h02min;
  • Elenco: Tom Hanks (Robert Langdon), Felicity Jones (Sienna Brooks), Bem Foster (Bertrand Zobrist), Sidse Babett Knudsen (Elizabeth Sinskey);
  • Direção: Ron Howard;
  • Roteiro: David Koepp;
  • Trilha sonora: Hanz Zimmer.

Assista ao trailer:

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.

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