Séries | Altered Carbon – primeira temporada (2018) | Crítica

Séries | Altered Carbon – primeira temporada (2018) | Crítica

No começo de fevereiro deste ano, a Netflix lançou mais uma de suas produções originais: Altered Carbon (ou Carbono Alterado em português). Inspirada no livro homônimo de Richard Morgan, a série chega para reanimar o cyberpunk com um toque de filme noir.

Antes de mais nada, cyberpunk é um subgênero da ficção científica voltado para o contraste entre tecnologia avançada e baixa qualidade de vida, onde a sociedade sofreu mudanças drásticas em sua organização e a desigualdade é extrema. Já o noir é um estilo clássico de filmes dos anos 40 e 50 que foca em anti-heróis atormentados por um passado sombrio, ambientes urbanos hostis e criminalidade.

A definição desses conceitos já resume a história de Carbono Alterado. A trama se passa em um futuro distópico, onde os avanços científicos permitem que a consciência humana seja armazenada em um cartucho e transferida para outro corpo – capa, como é chamado agora – quando o anterior para de funcionar. Assim, morrer torna-se obsoleto. Após 250 anos de sua última morte, Takeshi Kovacs (Joel Kinnaman, de Esquadrão Suicida) é posto em uma nova capa para desvendar o assassinato de Laurens Bancroft (James Purefoy). Porém, Kovacs se vê no centro de uma conspiração muito maior.

Pensar em uma sociedade futurista onde a morte não passa de um contratempo parece coisa de sonhos. Isto seria como a utopia do livro O Ceifador, que retrata o avanço da civilização a ponto de não haver mais mortes naturais. Entretanto, no universo de Altered Carbon não é assim que funciona. Somente quem possui muitos recursos pode ter um corpo saudável. Os mais pobres são obrigados a serem encapados em corpos doentes, envelhecidos ou mesmo do sexo oposto.

Isso desconstrói a ideia que fazemos de identidade. Seu corpo não é mais quem você é, se transformando apenas em uma peça de roupa. Para os matusas – pessoa que já viveram por séculos e acumularam uma fortuna – a vida humana é descartável, mostrando que a imortalidade faz com que esses indivíduos percam sua humanidade.

Por outro lado, a possibilidade de se conseguir corpos diferentes permite que a série tenha rotatividade no elenco, já que os personagens podem mudar de intérprete a cada temporada. Quem também se vale disso é Doctor Who, onde o protagonista pode regenerar suas células para enganar a morte e, em consequência, mudar sua aparência e gênero.

Um ponto negativo está na forma confusa como as informações são passadas. São muitos conceitos que acabam não sendo bem desenvolvidos tais como Emissários ou Protetorado Estelar; bem como a colonização espacial que ocorreu em algum momento. Mas o que realmente incomoda é o jeito mastigado como as respostas são entregues. Temos que aceitar que os acontecimentos estão correlacionados e aguardar pela explicação em forma de flashback. Tal formato impede que façamos nossas próprias deduções.

Se por um lado o encadeamento dos fatos deixa a desejar, outros elementos compensam. As cenas de ação são bem coreografadas e empolgantes. Os personagens são carismáticos, tendo inclusive a clássica figura que começa sendo odiada e depois cai nas nossas graças representada pela policial Ortega (Martha Higareda).

No final das contas, Altered Carbon merece ser vista não pelo thriller de suspense a que inicialmente se propõe, mas sim por representar o melhor do cyberpunk com análises que podem ser feitas sobre uma sociedade onde o preço da tecnologia é a humanidade das pessoas.

Assista ao trailer:

Saiba mais sobre Esquadrão Suicida ouvindo o Leituracast 18: melhores adaptações de quadrinhos em 2016

Conheça Doctor Who ouvindo:

Leia a resenha de O Ceifador 

 

 

Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.