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Literatura pós-pandemia: o futuro das produções literárias | Artigo

Literatura pós-pandemia: o futuro das produções literárias | Artigo

O ano de 2020 ainda nem terminou, mas você provavelmente já ouviu frases como “estou me sentindo em um livro do Stephen King” ou então “estou vivendo uma história de ficção científica”. Isso se deve ao período difícil pelo qual estamos passando ao enfrentar a pandemia do coronavírus. O que antes era visto apenas nos livros e no cinema, agora é realidade no mundo inteiro, afetando milhões de pessoas e causando várias mortes. Diante de um cenário real tão assustador, que influência isso terá sobre a ficção daqui para frente, mais especificamente na Literatura? Para responder a essa questão, ninguém melhor do que os novos autores nacionais, representando diversos gêneros literários.

A princípio, essa pode parecer uma reflexão desnecessária, visto que pandemias não são uma temática inédita dentro da literatura. Aqui mesmo no Leituraverso já demos alguns exemplos de obras que tratam desse assunto, sendo A Dança da Morte, de Stephen King, o mais chocante e realista de todos, retratando uma doença muito mais letal e agressiva que a COVID-19, que dizimou quase toda a população mundial. Então, se a ficção já chegou a esse ponto imaginativo, o que o coronavírus poderia trazer de diferente?

A escritora Michelle Pereira, autora da série Guardião do Medo e de outras obras de fantasia, tem a resposta para essa pergunta: Vivenciar um fato histórico como esse, triste e gravíssimo, de alguma maneira deve influenciar a nova literatura no sentido de termos vivido o momento. Estar dentro de uma situação facilita o modo de descrevê-la, de sermos empáticos (ao menos, quero imaginar que sim) e de sermos verdadeiros ao reproduzir isso.

Ela ainda pensa em possíveis abordagens para as obras literárias de ficção: No caso da Fantasia, ela pode se apropriar disso como gatilho para criações pós-apocalípticas, com uma nova roupa, uma roupa que todos os viventes vestiram e sabem como é. Num futuro distópico, o que aconteceria conosco? Sobreviveríamos? Seríamos dizimados? Teríamos que começar de novo? De qual ponto? A tecnologia entraria em colapso em algum momento e retrocederia ou, ao contrário, ela seria a guia dos nossos próximos passos como humanidade? Nós estamos preparados para o que vem depois? Há muito o que fazer na literatura com o cenário atual. Temos “material” com o qual trabalhar, um material doloroso e real, que gostaria que não tivéssemos.

Continuando no aspecto fantasioso, Cristina Pezel, autora da duologia O Mundo de Quatuorian, acredita que o caráter especulativo da literatura deve superar a realidade e ser ainda mais surpreendente, porém atentando para as “lacunas” que até então não foram esclarecidas: Do lado de cá – vida real – hoje a gente se depara com um cenário assustador e imagina que, no âmbito literário, precisaria dar aquele upgrade, aquele “a mais” de originalidade para que a percepção do público possa captar aquilo como chocante, surpreendente, interessante, curioso; precisamos ultrapassar o que já existe e foi vivenciado. Mas há temas transversais, coisas que permeiam uma pandemia como a que vivemos que dão margem a muita inventividade. As partículas virais têm exatamente a estrutura molecular que descrevem? E se descobrissem que o vírus começou a agir desde o início de 2019 de forma discreta? Este é um teste para um novo vírus? Há um perfil humano genético imune totalmente ao vírus? Temos um ótimo terreno para trabalhar a imaginação e especular, criando ideias que geram histórias inusitadas e inventivas.

Independente do grau de inventividade, as produções literárias sempre acompanham, de alguma forma, o mundo a sua volta. Para Waldir L. Santos, autor dos romances de suspense e terror Cativeiro do Medo e Flor de Sangue, o coronavírus pode reaproximar a ficção da realidade: Podemos verificar uma mudança nas obras sempre que um evento dessa magnitude acontece, como as guerras mundiais, o pouso do homem na lua, as armas atômicas etc. Essa pandemia mais “real” se comparada as que costumamos ver em Hollywood pode influenciar as obras a serem mais próximas a realidade que vivemos. Ele encerra com um toque de humor: Apesar de não acreditar que um livro contando como a Netflix e o confinamento salvou a humanidade possa ser um exemplo claro de terror (talvez psicológico).

Contudo, não é apenas a literatura em prosa que sentirá os efeitos da pandemia. Os poemas e poesias, essencialmente mais subjetivos e sujeitos a múltiplas interpretações, serão os mais atingidos, visto que essa crise afeta o íntimo de todas as pessoas, como explica a escritora e poeta Alice Maulaz: A poesia é parte de um conceito de beleza que só pode ser encontrada nas profundezas mais íntimas de um artista, logo a superfície geralmente não cobre a verdadeira mensagem de fato. Como leitora, não se pode ler um poema esperando necessariamente que esta mensagem desenvolvida possa simplesmente aparecer para a gente tão facilmente. Considero sempre a poesia como uma forma de descrever a alma de um autor em versos, mesmo que cada leitor tenha o costume de entender os versos de uma forma singular.

Mesmo que os impactos e influências sobre as produções literárias só possam ser vistos com mais clareza no futuro, a mente criativa continua trabalhando neste exato momento, mesmo com a quebra de rotina imposta pelo isolamento social. Assim, Alice acrescenta: É importante externarmos este processo de confinamento como forma de levantar reflexões, darmos voz e principalmente, pensarmos como nós, autores, podemos contribuir com a nossa escrita para a tornar este isolamento em algo simplesmente além de um momento de afastamento entre indivíduos. Para encerrar, ela cita Fernando Pessoa: “Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar só”. Então, nesta jornada diante das dificuldades, estaremos sozinhos juntos pela literatura e com a literatura.

Estamos enfrentando um momento difícil, onde vida e arte se misturam e não sabemos mais quem está influenciando quem. A única coisa que podemos afirmar é que a Literatura — e a arte de modo geral — está sendo impactada por essa realidade que vivenciamos e se encaminha para novos rumos, onde histórias deixam de ser apenas histórias para se tornarem registros das experiências que compartilhamos.

Agradecemos a participação dos autores e convidamos os leitores para conhecerem seus trabalhos.

Michelle Pereira:

Cristina Pezel:

Waldir L. Santos:

Alice Maulaz:

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Sobre Mozer Dias

Mozer Dias
Engenheiro civil, resenhista e podcaster. Sou apaixonado pela exatidão dos números e pela subjetividade das palavras. Penso que qualquer pessoa pode se aventurar por esses dois mundos, até porque foram as palavras que me apresentaram aos números e daí nasceu essa relação singular. O primeiro livro que li foi “O Homem que Calculava”, do autor Malba Tahan, que narra história de Beremiz Samir, um árabe com um dom inacreditável para a matemática e uma sabedoria que transcendia a mera racionalidade fria e impessoal. Sendo assim, é esse equilíbrio que busco para minha própria vida: fazer poesia com números e letras, mantendo sempre o coração aberto para a subjetividade que há nas entrelinhas e extrair disso o melhor que eu puder.